Estudo que assinala duas décadas de “Os Números da Ordem” revela desigualdades regionais, aumento da emigração e desafios na integração de novos profissionais
Lisboa, 02 de novembro de 2026 — Portugal tem hoje cerca de três vezes mais médicos dentistas inscritos na Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) do que há 20 anos, um total de 16.571, dos quais 83,7% têm a sua inscrição ativa. Entre 2005 e 2025, o número de médicos dentistas com inscrição ativa na Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) passou de 5.056 para 13.876, um aumento de 174%, num período marcado por profundas transformações na profissão, nomeadamente a predominância do género feminino (de 50% para 63,2%), a internacionalização (32% das novas inscrições em 2025 correspondem a profissionais estrangeiros, enquanto em 2005 representavam 8,5%), e as inscrições suspensas para exercício da profissão no estrangeiro quadruplicaram (de 13,4% para 56,3%).
Uma das principais conclusões do estudo “Os Números da Ordem” é o desfasamento face ao intervalo de referência da Organização Mundial de Saúde (OMS), com o rácio nacional a fixar-se, no final de 2025, em 822 habitantes por médico dentista com inscrição ativa (121,7 médicos dentistas por 100 mil habitantes), abaixo dos 1.500 a 2.000 habitantes por profissional (50 a 66,7 médicos dentistas por 100 mil habitantes). Este cenário evidencia uma pressão crescente sobre o mercado de trabalho, agravada pela distribuição desigual dos profissionais pelo território nacional.
Na área Metropolitana do Porto existe um médico dentista por cada 557 habitantes e na Grande Lisboa por cada 827. Em contrapartida, no Alentejo Litoral o rácio sobe para 2.287 habitantes por profissional e no Baixo Alentejo para 2.028. A análise dos últimos 20 anos revela ainda que 43,9% do crescimento líquido do número de médicos dentistas com inscrição ativa se concentrou na Área Metropolitana do Porto e na Grande Lisboa, demonstrando que o aumento de profissionais não foi acompanhado por uma distribuição equilibrada pelo país.
Outra das tendências que marcou estas duas décadas foi o aumento das inscrições suspensas na OMD, que quase quintuplicaram, passando de 532, em 2005, para 2.583, em 2025, um crescimento superior a 385%. Só no último ano, o número de profissionais nesta situação aumentou 7,3%. O exercício da profissão no estrangeiro continua a ser o principal motivo de suspensão, abrangendo 1.455 médicos dentistas (56,3%). Considerando também os 420 profissionais que indicam a ausência do país, 72,6% das inscrições suspensas estão associadas à saída de Portugal.
Esta evolução reflete duas realidades distintas, a emigração de médicos dentistas portugueses que procuram oportunidades profissionais noutros países e o regresso aos países de origem de profissionais estrangeiros que concluíram a sua formação em Portugal. França mantém-se como o principal destino dos profissionais com inscrição suspensa por exercício no estrangeiro, com 387 médicos dentistas, seguindo-se Itália (236), Reino Unido (225) e Espanha (193).
“Os números mostram que a medicina dentária mudou profundamente nos últimos 20 anos, mas também que o crescimento do número de profissionais, por si só, não resolve os desafios da profissão. É fundamental assegurar um planeamento adequado da formação e dos recursos humanos em saúde oral, que tenha em conta as necessidades da população, as assimetrias regionais e as condições profissionais. O desafio passa também pela criação de mecanismos de fixação de profissionais, em que o país seja pensado de forma transversal, em termos de coesão territorial. Portugal tem uma disfuncionalidade demográfica e de oportunidades do ponto de vista territorial e que deve ser considerada na forma como estes recursos são distribuídos e integrados no sistema de saúde”, afirma o Bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas, Miguel Pavão.
“A carreira de medicina dentária no Serviço Nacional de Saúde será um princípio para a fixação de profissionais, mas é preciso mais: um pacto para a saúde oral assente em sinergias entre governos, políticos e dirigentes, planeado sob o ponto de vista geracional. Continuamos a formar profissionais que não encontram espaço no mercado de trabalho e continuamos a ter uma percentagem elevada da população sem acesso aos cuidados de saúde oral”, acrescenta.
A transformação da profissão é também visível no perfil demográfico. Atualmente, 63,2% dos médicos dentistas com inscrição ativa são mulheres, uma proporção que sobe para 73,5% entre os profissionais até aos 35 anos. Paralelamente, a média de idades aumentou de 35,8 anos, em 2005, para 42 anos, em 2025, refletindo o progressivo envelhecimento da classe.
Também a internacionalização ganhou expressão nas últimas duas décadas. Em 2005, apenas 8,5% das novas inscrições na OMD correspondiam a profissionais estrangeiros, uma proporção que alcançou os 32% em 2025. Esta tendência acompanha a crescente capacidade de atração internacional das instituições de ensino superior portuguesas.
Olhando para o período de 2026 a 2029, as projeções apresentadas apontam para a continuidade do crescimento da profissão, estimando-se que Portugal possa atingir os 15.700 médicos dentistas com inscrição ativa em 2029, com um rácio de apenas 755 habitantes por profissional. A confirmarem-se, a pressão sobre o mercado de trabalho deverá acentuar-se, reforçando a necessidade de um planeamento adequado da formação e da integração dos profissionais.
Perante esta evolução, a OMD alerta para a importância de uma reflexão sobre a sustentabilidade da profissão e aconselha os candidatos ao curso de medicina dentária a ponderarem as condições de empregabilidade e de exercício profissional em Portugal. A Ordem reforça, ainda, a necessidade de uma revisão estruturada das políticas públicas de ensino e formação pós-graduada, que permitam responder aos desafios identificados e contribuir para a qualidade dos cuidados de saúde oral prestados à população.
A edição especial de 2026 de “Os Números da Ordem” assinala os 20 anos do estudo e apresenta uma análise retrospetiva da evolução da medicina dentária em Portugal, identificando as tendências estruturais que marcaram as últimas duas décadas e os principais desafios que persistem sobre o futuro no exercício da profissão. A análise aos dados da OMD, reportados a 31 de dezembro de 2025, permite extrair conclusões relevantes sobre a evolução demográfica, formativa e laboral da medicina dentária em Portugal.


