· Simpósio “A Saúde Começa na Boca – Açúcar, o inimigo silencioso” reuniu especialistas de diferentes áreas da saúde, decisores e representantes do setor para debater o impacto do açúcar na saúde dos portugueses
· Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) apresenta três prioridades de atuação e vai fazer chegar ao Governo uma carta aberta com propostas para reforçar a prevenção, reduzir desigualdades e melhorar o acesso aos cuidados de saúde oral
Lisboa, 22 de outubro de 2026 —A Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) defende uma resposta integrada no consumo excessivo de açúcar que conjugue saúde oral, alimentação, prevenção das doenças crónicas e acesso aos cuidados primários de saúde, desafiando os decisores políticos a traduzirem as recomendações apresentadas, esta segunda-feira, num plano de ação com objetivos e avaliação de resultados.
A posição foi assumida no simpósio “A Saúde Começa na Boca – Açúcar, o inimigo silencioso” que reuniu especialistas em medicina dentária, cardiologia, endocrinologia, nutrição, diabetes, psicologia e ciências comportamentais, responsáveis da Direção-Geral da Saúde e representantes de diferentes setores, incluindo o setor da distribuição.
O debate partiu da necessidade de discutir o açúcar numa perspetiva transversal, juntando diferentes valências da saúde e ultrapassando uma leitura exclusivamente centrada na doença oral. A evidência científica estabelece uma relação causal robusta entre a quantidade de consumo de açúcares livres e a cárie dentária, estando o consumo excessivo também associado ao excesso de peso e ao risco de doenças crónicas não transmissíveis, incluindo a diabetes tipo 2.
No encerramento, Miguel Pavão, Bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas, apresentou três prioridades para Portugal: proteger a saúde oral e as crianças; corrigir o ambiente alimentar e comercial; e enfrentar as causas sociais, comerciais e políticas que condicionam a prevenção e o acesso aos cuidados de saúde.
“Não basta criar medidas, temos de garantir que são conhecidas, utilizadas e eficazes, sobretudo para quem enfrenta maiores barreiras. A prevenção alimentar e a saúde oral não podem continuar a ser tratadas como áreas separadas”, afirma Miguel Pavão, defendendo uma articulação mais estreita entre o Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável e o Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral, com objetivos comuns, indicadores partilhados e coordenação regular.
Também a Diretora-Geral da Saúde, Rita Sá Machado, destacou durante o encontro a necessidade de aprofundar a articulação entre o Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável e o Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral. “Não faz sentido falarmos da redução do consumo de açúcar na saúde oral de uma forma e de alimentação saudável de outra. Para as pessoas não existem este tipo de fronteiras. Precisamos de promover a saúde de forma integrada, com mais promoção, mais prevenção e mais trabalho multidisciplinar”, afirmou.
A primeira prioridade apresentada pela OMD passa por reforçar a prevenção desde a infância, fazendo da prevenção da cárie dentária uma prioridade nacional e promovendo uma intervenção particularmente precoce nos primeiros anos de vida. 46,5% das crianças portuguesas entre os 5 e os 14 anos bebem refrigerantes açucarados pelo menos uma vez por semana e 35,5% apresentam excesso de peso. A Ordem defende, assim, maior orientação às famílias, mais literacia alimentar e uma atuação articulada entre médicos dentistas, higienistas orais, médicos de família, pediatras, enfermeiros, nutricionistas e outros profissionais de saúde.
Na segunda prioridade, centrada no ambiente alimentar e comercial, a OMD considera necessário continuar a avaliar e reforçar as medidas que promovem a redução do açúcar, melhorar a rotulagem e a oferta alimentar em creches e escolas e garantir uma proteção efetiva das crianças face à publicidade de produtos ricos em açúcar, em particular nos meios digitais. Entre 2017 e 2025, a proporção de bebidas enquadradas no escalão mais elevado do IABA (Imposto sobre as bebidas alcoólicas e não alcoólicas) diminuiu cerca de 45%, um sinal compatível com a reformulação da oferta, embora a Ordem defenda que é necessário avaliar o impacto efetivo destas medidas no consumo. A OMD defende, ainda, que as políticas fiscais associadas ao açúcar preservem uma ligação clara aos objetivos de promoção da saúde.
A terceira prioridade centra-se na equidade e no acesso aos cuidados, numa realidade em que a saúde oral continua fortemente marcada pelas desigualdades sociais. A dentição natural completa é cerca de três vezes mais frequente nas classes sociais mais altas do que nas mais baixas - 46,4% face a 14,4% - e 22,2% dos portugueses referem dificuldades financeiras como razão para não recorrerem regularmente ao médico dentista. Acresce que 70,3% da população desconhece a oferta de medicina dentária existente no SNS.
A OMD defende uma intervenção dirigida às crianças e famílias em situação de maior vulnerabilidade, uma melhor divulgação da oferta pública de medicina dentária, a otimização dos mecanismos existentes e a análise das razões pelas quais tantas referenciações para medicina dentária não se traduzem na concretização de uma consulta. A Ordem considera, ainda, essencial definir metas mensuráveis, monitorizar resultados e avaliar se as políticas chegam efetivamente às populações que mais precisam.
“A saúde oral não pode ficar à margem da política alimentar. E a política alimentar não pode ignorar os dentes. Proteger as crianças do excesso de açúcar é investir na sua saúde, no seu futuro e numa sociedade mais justa”, sublinha Miguel Pavão.
A OMD vai fazer chegar ao Governo uma Carta Aberta com um call to action com as prioridades e propostas resultantes do simpósio, desafiando os decisores políticos a reforçar a ligação entre prevenção, equidade e acesso aos cuidados e a integrar efetivamente a saúde oral nas políticas gerais de promoção da saúde. A proposta passa por transformar os compromissos apresentados num plano de ação com responsáveis definidos, calendário, financiamento, indicadores públicos e avaliação periódica.


