European Economic Outlook da KPMG antecipa crescimento acima da média da Zona Euro, mas identifica riscos para Portugal associados a eventuais constrangimentos no combustível para aviação e ao impacto no setor turístico
Lisboa, 16 de junho de 2026 – A economia portuguesa está entre as mais expostas da Europa a uma eventual perturbação da época turística de verão, num cenário de constrangimentos no abastecimento de combustível para aviação. O alerta é feito no European Economic Outlook da KPMG, que analisa os impactos económicos da atual instabilidade no Estreito de Ormuz e antecipa um novo choque energético para a Europa, com potenciais efeitos na inflação, no consumo, nas cadeias de abastecimento e nos setores mais dependentes da mobilidade internacional, como o turismo.
De acordo com o relatório, a economia europeia enfrenta um contexto de maior incerteza, marcado pela subida dos preços da energia e por potenciais perturbações no abastecimento de várias matérias-primas. Embora o relatório da KPMG considere improvável uma recessão generalizada na maioria das economias europeias, alerta que uma crise mais prolongada poderá intensificar as pressões inflacionistas e agravar os riscos para os países mais dependentes do turismo.
No caso português, o relatório projeta um crescimento económico de 2,0% em 2026, acima da previsão para a Zona Euro, que deverá crescer 0,9% no mesmo período. Para 2027, a KPMG antecipa um crescimento de 1,7% para Portugal, continuando acima da média prevista para a Zona Euro, de 1,2%. Apesar deste desempenho relativamente positivo, Portugal surge entre os países mais vulneráveis a uma eventual redução de voos, cancelamentos ou quebra nas reservas turísticas, num cenário de constrangimentos no abastecimento de jet fuel. Segundo a KPMG, este risco é particularmente relevante para economias em que o turismo internacional tem um peso significativo nas exportações de serviços e no suporte à atividade económica.
O relatório destaca que uma perturbação sustentada na mobilidade aérea, seja através da redução da oferta de voos, seja por uma alteração do comportamento dos consumidores, com mais turistas a optarem por férias mais próximas de casa, poderia penalizar as receitas de exportação de serviços e retirar dinamismo a um dos principais motores de resiliência económica de países como Portugal.
“O turismo tem sido um dos pilares da resiliência económica portuguesa nos últimos anos e continua a ser uma vantagem competitiva relevante para o país. No entanto, essa força também cria uma exposição acrescida a choques externos que afetem a mobilidade internacional, os custos da energia ou a confiança dos consumidores. A eventual pressão sobre o combustível para aviação deve, por isso, ser acompanhada com atenção, não apenas pelo impacto direto no setor turístico, mas também pelos efeitos indiretos que poderá ter no consumo, no emprego, nas receitas externas e na confiança empresarial”, afirma Miguel Afonso, Partner e Head of Clients & Markets da KPMG Portugal.
Matérias-primas afetadas
A KPMG sublinha que o atual choque energético apresenta diferenças relevantes face à crise de 2022, marcada sobretudo pela dependência europeia do gás russo. Desta vez, a perturbação tem uma natureza mais global e poderá refletir-se num conjunto mais alargado de matérias-primas, com potenciais efeitos nas cadeias de abastecimento e em vários setores da economia. A exposição direta da Europa ao gás associado ao Estreito de Ormuz é mais limitada, o que reduz o risco de escassez física semelhante ao que foi registado em 2022, mas o impacto nos preços globais da energia e em matérias-primas críticas poderá ser mais disseminado.
Entre os produtos potencialmente afetados estão o petróleo, o gás natural liquefeito, o alumínio, o hélio, o amoníaco e fertilizantes. A KPMG alerta que muitos destes bens são essenciais para setores industriais estratégicos e que a possibilidade de substituição no curto prazo é limitada. No setor industrial, a pressão sobre o alumínio poderá aumentar custos na indústria automóvel, enquanto eventuais restrições no hélio, utilizado na produção de semicondutores, poderão criar riscos adicionais para centros avançados de produção na Europa.
Inflação a subir em 2026
A inflação deverá voltar a acelerar na Zona Euro, com a KPMG a prever uma taxa média de 3,1% em 2026, impulsionada sobretudo pela componente energética. O aumento dos custos de transporte e da energia poderá também refletir-se, de forma indireta, nos preços de outros bens e serviços, prolongando o impacto inflacionista para além dos combustíveis e da eletricidade.
Este contexto deverá penalizar o rendimento real das famílias e moderar o consumo privado ao longo dos próximos meses. Ainda assim, a KPMG considera que o consumo continuará a ser a principal base de crescimento económico na Europa, apoiado pela resiliência do mercado de trabalho. No entanto, a deterioração da confiança dos consumidores e a expectativa de perda de poder de compra poderão levar as famílias a adiar decisões de maior valor e a reduzir despesa discricionária.
A resposta dos bancos centrais será condicionada pela duração e intensidade do choque. De acordo com a KPMG, caso a perturbação no Estreito de Ormuz seja resolvida rapidamente, os efeitos de segunda ordem sobre a inflação poderão ser mais limitados, reduzindo a necessidade de uma resposta monetária agressiva. Num cenário mais prolongado, porém, as pressões inflacionistas poderão justificar uma orientação mais restritiva, com impacto nas condições financeiras de empresas e famílias.
A KPMG sublinha ainda que os governos europeus dispõem hoje de menor margem orçamental do que em crises anteriores: ao contrário das medidas amplas adotadas durante a crise energética de 2022, os apoios atualmente previstos deverão ser mais limitados, temporários e direcionados, refletindo a preocupação acrescida com a sustentabilidade das finanças públicas.
“Para Portugal, a mensagem central é clara: a economia mantém fundamentos positivos e uma previsão de crescimento superior à média europeia, mas não está imune a riscos externos. Num país onde o turismo, os serviços e a confiança internacional têm um peso determinante, a capacidade de antecipar cenários, reforçar a resiliência das empresas e diversificar fontes de crescimento será decisiva. Este é um momento em que empresas e decisores devem olhar para a gestão de risco, para a eficiência operacional e para a robustez das cadeias de abastecimento como prioridades estratégicas”, acrescenta Miguel Afonso.
Crescimento na Zona Euro
Segundo o European Economic Outlook da KPMG, o crescimento da Zona Euro deverá desacelerar de 1,4% em 2025 para 0,9% em 2026, antes de recuperar parcialmente para 1,2% em 2027. A inflação deverá subir de 2,1% em 2025 para 3,1% em 2026, recuando depois para 2,3% em 2027. O relatório antecipa ainda que o desemprego na Zona Euro se mantenha relativamente estável, em torno dos 6,3% em 2026.
Para Portugal, a previsão de crescimento de 2,0% em 2026 coloca o país entre as economias europeias com desempenho mais favorável face à média da Zona Euro, embora com riscos acrescidos caso a crise energética se prolongue e afete a mobilidade aérea, o turismo e a confiança dos consumidores.
Nota: As conclusões e projeções deste relatório refletem o contexto económico e geopolítico existente no momento da sua elaboração. O recente anúncio de um acordo entre os Estados Unidos e o Irão, que inclui a reabertura do Estreito de Ormuz, poderá mitigar alguns dos riscos associados aos mercados energéticos globais identificados nesta análise. No entanto, a materialização destes efeitos dependerá da implementação do acordo e da evolução das condições geopolíticas e comerciais na região.
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