No Dia Mundial da Alimentação, a Universidade de Coimbra chama a atenção para uma dimensão menos visível daquilo que comemos: as receitas de família são também património, memória e identidade. A Family Food Heritage permite guardar receitas, histórias, pessoas e lugares e reconstruir a forma como foram transmitidas entre gerações
Coimbra, 15 de outubro de 2026 – Uma receita de família raramente é apenas uma lista de ingredientes. Por detrás de um prato podem estar pessoas, lugares, memórias e gestos que passam de geração em geração e que, muitas vezes, nunca chegaram a ser escritos. Aprende-se a fazer “como a mãe fazia”, observando, ouvindo e repetindo.
No Dia Mundial da Alimentação, assinalado a 16 de outubro, a Universidade de Coimbra, através do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos (CECH), chama a atenção para a importância de preservar este património alimentar quotidiano. Quando uma receita deixa de ser transmitida ou se perde um caderno, uma fotografia ou a memória de quem ensinou determinado modo de preparação, desaparece também uma parte da história familiar.
É para ajudar a preservar estas histórias que foi criada a Family Food Heritage (FFH), uma aplicação para iPhone e Android que permite às famílias reunir e transmitir receitas, fotografias, documentos, memórias, pessoas e lugares associados à sua história alimentar.
“Aquilo que comemos não começa em nós. O nosso gosto é aprendido e muitas das receitas que hoje fazem parte da nossa vida chegaram-nos através de pessoas, gestos e memórias familiares. Mas também não somos apenas guardiões dessa herança: transformamo-la e criamos aquilo que vamos deixar às próximas gerações. A Family Food Heritage permite usar as ferramentas do nosso tempo para preservar um património vivo que, de outra forma, corre o risco de desaparecer”, explica Carmen Soares, Investigadora e Coordenadora Científica do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Da receita manuscrita à memória de quem a ensinou
Mais do que um arquivo digital de receitas, a Family Food Heritage permite reconstruir a história que existe por detrás de cada prato. É possível identificar quem transmitiu uma receita, se esta foi aprendida oralmente, através da observação ou por escrito, e relacioná-la com diferentes pessoas e lugares. A app inclui ainda um modo memorial, que permite integrar familiares já falecidos como transmissores de receitas e conhecimentos.
A tecnologia ajuda também a preservar os antigos cadernos de cozinha: através de Inteligência Artificial, o utilizador pode fotografar uma receita manuscrita e extrair automaticamente o texto para o ambiente digital, podendo depois corrigi-lo e acrescentar fotografias, memórias e informação sobre a sua origem.
A plataforma reúne já famílias de diferentes países, incluindo Portugal, Brasil e Noruega, mostrando como as receitas acompanham os percursos familiares e se transformam quando atravessam lugares e gerações.
Um projeto europeu liderado pela Universidade de Coimbra
A Family Food Heritage é desenvolvida através de uma abordagem de ciência cidadã, tendo contado com a participação de cidadãos na definição daquilo que deveria ser preservado e da forma como a tecnologia poderia apoiar essa transmissão.
O desenvolvimento da aplicação é liderado pela Universidade de Coimbra, através do CECH, no âmbito do projeto europeu CONVIVIUM – New European Bauhaus Solutions in Food, Living Heritage and Conviviality, coordenado pela Universidade de Coimbra e que reúne 20 instituições de sete países europeus.
A Family Food Heritage está disponível para iPhone e Android em familyfoodheritage.eu.


